domingo, 24 de outubro de 2010

O alto da cidade

Aqui do alto da cidade
Da pra ver que os outros dormem
Junto aos meus amigos
Fumamos cigarros e bebemos vodka barata

Aqui em cima, nada importa
Não chega até a colina o cheiro de bosta
Que exala no convívio diário
Aqui em cima a cidade é nossa
E, mesmo que só por algumas horas,
A liberdade bate à porta

Vandalizando como crianças
Rolando no asfalto cheio de lembranças
Um portal pra outro mundo na madrugada
E o calor da amizade, na brisa gelada

Aqui em cima, um socialismo de reis
Somos todos Deuses, somos todos plebeus
Encostados no carro, com vontade de vomitar
Rindo alto e gritando pra ninguém escutar

Aqui em cima, nada importa
Não chega até a colina o cheiro de bosta
Que exala no convívio diário
Aqui em cima a cidade é nossa
E, mesmo que só por algumas horas,
A liberdade bate à porta

Às seis, o sol vem nos expulsar
Por trás do letreiro em francês
Não leva em conta se ali é o nosso lugar
E se voltaremos a ser infelizes
Descendo
Voltando ao lodo
Agora, só a madrugada nos pertence
Vampiros modernos
Mordendo pelo pescoço o sincero presente
Que só a lua soube entender.

sábado, 23 de outubro de 2010

Há quase um ano

Vá, eu tenho muita esperança,
Mas às vezes esbarro na herança da minha raça
E me canso de tentar conquistar o que eu queria

Bem que eu tentei de outras formas
De doces a rosas
Mas só me resta na cartola
A tal da poesia

Pra convencer-te de tal maneira
Que eu não pareça igual a tudo que vivestes
Eu, que ignoro o seu passado,
Mas quando vejo os seus olhos,
Tão de perto ou em fotos,
Cético que sou,
Busco saídas no horóscopo,
Desprezo o carnaval.

E na boemia a que me entrego
Com a experiência de um sacerdote
Faz falta a tua presença
Na liturgia dos velhos bares

Sei que talvez eu possa,
Não inspirar-lhe muitas certezas
Sei que a aposta é cara
E talvez que o prêmio, não compensa
Então, só me resta que meus versos
tão brutos e simples
Te envolvam, mudos e sinceros
Em um abraço roubado e gostoso
Tão poderoso
Meio doce e meio amargo
Com aquela pontinha de medo no peito
E o sorriso aberto na cara

É minha última cartada
Antes de perder o que eu nem cheguei perto de ganhar
Eu não preciso te conhecer pra gostar-lhe
Basta saber que, cético que sou,
Deixo a intuição me levar
E abandono por você todas as minhas convicções.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Flor de Cemitério

Uma flor tomava sol ao meio-dia
Exalando ousadia
Desafiando velhos poetas
não era amarela, nem medrosa
Rosa altiva vermelho-sangue
Solitária ne encosta de um cemitério

Não queria ser funcionário público,
Nem advogado, nem médico
Mais do que tudo, almejava ser flor
Solitária na encosta do cemitério
Um pouco de cor ao cinza das lápides

Não precisava ser regada
Se alimentava da morte
Sorte de quem vive no cemitério
e é amiga do coveiro
Garçom dos mais prestativos

Alma não tinha
Nunca aprendeu a rezar a ave-maria
apesar de ouvi-la quase todo dia
Também, que importa,
Pra quem fotossintetiza amor?

Ás vezes o vento a tirava pra dançar
a valsa dos diferentes
Solitários na encosta do cemitério
Loucos dançando sem música
Cambaleando sem sair do lugar

Devia estar ali há duzentos anos
Nunca morreria
Até o fatídico dia
em que foi colhida
e morreu nos cabelos de uma mulher.

Nada

Eu me entrego a você
Mesmo sem saber no que pode te ajudar
Talvez pelo exemplo do que não fazer
O alívio de não ser eu

Eu me entrego a ti
Com o sangue não metafórico que ouso derramar
Tome um drink logo
Que já vai cicatrizar
E retornar a condição de mera linguagem

As palavras, efêmeras,
Têm demonstrado muita dificuldade
Em combater com eficiência
A ditadura das imagens
Que perderam o controle e
têm a insolência de se revoltar
Aguçando os cinco sentidos de maneira controversa
Pobres, palavras, coitada delas!
Nas eras modernas tem que se aproveitar da omissão
Mentir, sim, por que, não?
A verdade, agora, pertence às imagens.

Eu quero me entregar
De um jeito que não tenha volta
Olhar para o céu e blasfemar
"Que paredes tortas"
O sol se apagou, no interior do meu quarto
É madrugada, toda artificial
Não possuo nada,
Tal qual eu sempre sonhei
Eu sou o escravo liberto
Com responsabilidades de rei
Sou esperto o bastante para saber
que olho sempre pro mundo
E o mundo fingi que nunca me vê
O nada me cortejou e, fácil que eu sou,
Entreguei-lhe, com satisfação, todo o amor que eu nunca vou ter.

27 anos

Faça soar de uma maneira
Que as palavras sejam coisas secundárias
E que você faça se entender
Pela beleza que transpassa, rara

Aniquila o ódio que embala os seus sonhos
E ame sem precisar dizer "eu te amo"
Comunicaremo-nos pelas entrelinhas
Entre conversas fúteis e mesquinhas

Você vai me reconhecer
Quando notar que já não tem mais esperança
E vai crer que se voltasse a ser criança
Nada ia mudar

O sorriso estampado na fotografia
Parece tão mais colorido
De que eu me lembro ter sido aquele dia
Que eu ainda não tinha a capacidade de prever
No qual eu não fazia planos de morrer
Aos 27 anos

E as camisas amarrotadas
Que passaram tanto tempo no meu corpo
Foram lavadas pelo meu suor
Que cai em gotas e evapora logo que começa a escorrer

O inferno é aqui mesmo
Eu sei que os Demônios vivem aqui dentro
Apertados e sedentos
Loucos para ver a luz do dia
Mas também sei que eu sou meu Deus
Mais que tudo, um campo de batalhas
Travadas incessantemente e,
Tão pouco castas
Quando eu te disser as primeiras palavras
Não importa o que houver
Olhe nos meus olhos
Você vai me reconhecer.

O futuro

O futuro é apenas um universo paralelo
Que construímos com nossos sonhos
Pequenas plantas rasas do porvir
Que serve de analgésico à realidade,
Frustrante presença amiúde

Por que viver, se podemos sonhar?
E por que não sonhar, se temos que viver?
É madrugada e eu me recolho ao quarto
Mais uma noite sem sono, fruto de um dia comum
Planejo metodicamente o dia de amanhã
Que nunca chega
É hoje; sempre.

Cambaleio por entre estradas metafóricas
Numa denotação de desespero
Ruborizando as minhas faces
Desapontado
Chega de sonhar
Só quero dormir.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

História em números

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