segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A invenção da roda

No começo eram só grunhidos e urros
Então, demos nome as coisas
Mas foi só uma declaração
Elas já existiam

Depois demos nome aos nossos filhos
E eles passaram a existir, a ser alguém
Até que tudo morreu
E permaneceram as palavras
Nas lápides e nos livros

Algumas palavras também morreram
E foram substituídas por outras
Como os filhos dos primeiros filhos
Que ficaram a mercê dos cartórios
E das celebridades do momento

E algumas celebridades viraram monumento
Mas todas morreram
Sendo que quase todas tiveram filhos
Que disseram suas primeiras palavras
Bem ao pé do ouvido daqueles de futuro certo

E até que detenham o tempo
Com um tiro certeiro da arma escondida
Nas palavras ditas por aqueles que não sabem andar, até lá
Até lá é tudo cíclico
Qualquer ponto final é só reticências.

Natureza morta

Hoje, de novo, preferi ficar em casa
Não me agradam mais as caminhadas, como antigamente
Contudo, poeta como sou, de nascença
Me ponho a refletir sobre as minhas memórias

E, de repente, me dou conta
Que tudo que eu tenho a minha volta
Não é mais que natureza morta

Do artificialismo político
Aos conceitos pré-concebidos
Dos sonetos escritos
Para falsos amores

A natureza chora, contrariando os dogmas da vida
Morta e sem perspectivas
Os seres são inanimados e o tempo parou

sábado, 30 de outubro de 2010

Ai, meu Deus

Deus existe? Não sei
Eu não acredito
Descobriremos quem está errado
Quando a morte bater à porta
Na verdade, não
Porque não existe nada depois da morte
Isso porque Deus não existe.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Coloquial

Eu queria ser viado
Porque os homens, em geral, são mais inteligentes
Sigo procurando a exceção
Por apreciar uma boa vagina quente

E se te escandaliza essas palavras
É porque tem um mínimo de moral cristã
Deus é só uma falácia
Que não entende nada de genitália

Se o preconceito ainda te toma
Não sou tão genial quanto Bocage
Mas que vás para o inferno
Esperando de quatro um milagre

Porque eu quero alguém que me compreenda
Mas não tenho prazer carnal no masculino
Então guardo bem os meus amigos
E me regozijo no carnaval

Mulheres normais, não se sintam mal por mim
Eu ainda as amo, sobretudo pela ternura
Mas, para companheira, eu preciso de alguém diferente, com outra postura
Uma amiga, mais que um amor.

Um trago

Acordei mais cedo, hoje
E há em mim uma inquietude que solicita atenção
Porque eu sei que é um dia
Especial por se tratar de exceção

Pego na mão o maço de cigarros
Procuro os fosfóros, porém, em vão
(Devia ter comprado um isqueiro, me repreendo)
Mas ainda é cedo demais e só me valem os fósforos
Que estão escondidos por debaixo das vicissitudes da minha existência
Sem eles, os cigarros me são inúteis

Mastigo um pouco de tabaco, para aliviar a tensão
Mas só penso nos fósforos
E nas idéias que eu tenho
Que são cigarros sem o que as acenda
Esses, estão perdidos pelo mundo,
Não faço idéia de quem tenha algum para me emprestar
E acho que nem são vendidos na padaria os fósforos
(metafóricos)

E minha poesia tem cheiro, tem sabor
Mas é inútil, não passa de mero devaneio
Porque a sua plenitude necessita de pegar fogo
Paradigmático pedaço de tabaco virgem
Aceso pelo coração dos que sonham
Ou dos que perderam todos os sonhos

Eu vou morrer, mas sei lá quando
A única verdade inefável agora é que estou com os pulmões limpos
À contragosto, porque o prazer pede sacrifícios
E luta, e morte lenta, imperceptível
Mas não tenho os malditos fósforos
E não tenho a maldita sorte
Sequer sei se tenho o maldito talento

Mas hoje é um dia de exceção
Nos tempos de exceção
E dizem que a chave da felicidade é o amor
Eu amo os cigarros, mas não tenho como os acender
Eu amo a poesia, mas mal a posso escrever
Para que um desconhecido a leia
E mastigue um pouco, só pra sentir o gosto
Que devia ser gasoso e chegar ao peito
E se, por acaso, um alienígena
Tiver uma labareda nos olhos
Ainda temos o Ministério da Saúde pra advertir
Que fumar causa dor, sofrimento e morte
Ler poesia, também
Amar também
Mas ainda vale, pelo prazer

Já é dia e a padaria já deve estar aberta
Vou buscar os fósforos e fumar
Fumar até morrer de desgosto
Enquanto escrevo, pra que alguém, algum dia
Entre na minha loja de inconveniências
E sirva-se, da minha poesia ardente
E que tome cuidado, pra não queimar por acaso o coração
Como eu fiz com meu braço esquerdo
Mas isso foi com um cigarro
Alías, de que importa,
A diferença é simplesmente de dimensão
A carne e o espírito
Vítimas do vício
Prisioneiros do fogo e da paixão

As guimbas estão no vaso
Dou descarga
As folhas estão no chão.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Imóvel

Até hoje só vivi em um lugar
Talvez por isso, me considere de lugar nenhum
O meu mundo, todo ele, não possui divisões
Nem lugares no qual eu nunca fui
Vivo em todos os lugares
Que são apenas um
Indivisível

Hão de me perdoar aqueles mais vividos
Mais experientes, que tem tantas marcas pra mostrar
Mas eu nunca soube o que é sair daqui
Tive vontade, até que o medo tomou conta
Até que a fome apertou feito criança

Eu posso até voar, mas rasante
Perto do chão, comendo larvas como os pássaros
Nunca ousando voar tão alto quanto avião
Sem a mínima noção do que irá acontecer
Já que ainda não sei como sair daqui
Desde que nasci, se não me falha a lembrança
É que eu vivo nesse lugar
Uma caverna chamada Esperança.

Sou um pagão esperando a volta do salvador ateu.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Confissão

Não sou poeta porque sofro
Se sofro, é porque sou humano
As letras é que teimam em se agrupar
E dizer algo que não sentem
Se apoderar da dor que não é delas
Roubando emoções alheias
Com a promessa malograda
De as levarem para sempre

Sou poeta porque sou ignorante
E ,apesar do meu materialismo,
Continuo a acreditar
Que escrever o que eu sinto
Possa, de alguma forma, abrandar
O cinismo que opera minha alma
Toda vez que a maldita crê
Que é feliz quem o quer ser

Em vão
Sou poeta eternamente
Desejando à exaustão
Nunca deixar de sê-lo