sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Tenho dito

Eu sou o filho que toda mãe queria ter
Menos a minha
Eu sou o garoto que ninguém queria ser
Exceto eu
Quem me conhece sabe que eu estou realizado
Quem me vê, acerta, não tenho nem um centavo

Sou o mártir vilanizado
O herói martirizado
Pelo nada, por assim dizer
Com uns versos na cabeça
E um pão no bolso, para comer

Porque viver de poesia
É como viver de amor
Só é bonito escrito
A vida não é nenhuma flor
E tenho dito.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Ro!cosor

O melhor beijo que já tive
Foi aquele que você me negou
Me chamando de amor
E encostando os lábios na minha testa

Agora, só me resta seguir viagem
De carona no primeiro caminhão
Sozinho e dilacerado
Até encontrar o caminho para fora daqui

Até chegar em um lugar
Onde ainda não inventaram a solidão
Onde os sonhos não existem
Onde o único sonho é acordar

Por que dormir é tão bom?
Por que a insônia é o pior das maldições?
Porque a vida é fácil
Para quem não vive, só existe

Eu não tenho medo, eu não tenho amor
Eu estou aprisionado na teia da aranha-gigante
Que todos os dias tece o amanhecer
Fazendo o sol nascer e me engolir

Se é a prova que te faltava
Estão bem aqui, as notas rasgadas
Que eu estava guardando no bolso
Para minha última dose de whisky nacional

Eu acho que enlouqueci
E tudo que me dizem é pra pensar que sou feliz
Eu até tento mentir, mas sou um mau mentiroso
Porque só sabem contar mentiras
Aqueles que conseguem crer nas palavras
Que saem direto da garganta
Para fazer a sua última ceia

Por que dormir é tão bom?
Por que a insônia é o pior das maldições?
Porque a vida é fácil
Para quem não vive, só existe.

Amor no conta-gotas

Todo dia eu me afogo
Nas lágrimas que eu não choro
E fico um tempo calado, no meu canto
Depois lavo o rosto e me recomponho
Esperando não afetar tanto
Aqueles que eu deveria amar

Mas, por enquanto, eu só amo
Aqueles que me fazem mal
Os que me mutilam, me cortam
Quem tiver um punhal
E estiver disposto a usá-lo
Ganhará meu amor incondicional
Maior do que o que eu tenho
Pelo gargalo da garrafa de vodka

Ora, como lutar pela vida
Se a vida é o meu próprio desgosto
Como cicatrizar as feridas
Se o gosto do sangue quente
É tão atraente que, sem fé,
Rezo por uma gota

Eu estou viciado na dor
E vivo num paradoxo inexorável
Onde sorrir é bom
Porque é inefável
Tentar esconder o quanto isso me agrada
Por cortar-me o coração em pedaços
Vários, incontáveis
Lindos e ensaguentados;

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Anjo e Fogo

Menina do corpo marcado
E dos cabelos da cor da noite
Do coração fechado
Para outros amores

Que não sejam os seus, pessoais
Que não te resumam, em linhas gerais
É por ser impossível que me encanto
Por isso lhe dedico esse pequeno canto

E a fé que me falta na vida
Eu compenso nas suas feridas
Que vou ter prazer em beijar

E até a lua, que ilumina a sua dança
Como se fosses uma deusa cigana
Há de, por fim, se entregar

Bosta-nova

Nunca fui uma criança normal,
Mas tinha coisas normais de criança
Como desejar a independência
Que eu conquistei, sem fazer muito esforço

Nesse momento eu não sou mais que um jovem adulto normal
Melancólico, independente, solitário
Com prisão de ventre
Resultado dos medicamentos que agora controlam minha mente
E me mantém no caminho certo, dos adultos normais
Na estrada para o inevitável

Nem o cheiro da bosta me comove mais
A bosta que sou eu, acima de tudo
Escorre pela descarga, junto com os meus sonhos
Se misturando pelo ralo a baixo
Com a bosta dos outros adultos sem sonhos
Que estão mortos por dentro
Mas nem o cheiro dos mortos me incomoda
Porque eu sou independente
Como eu sonhava em ser quando era criança
E descobri que as crianças não sabem sonhar
As crianças só servem para ser sonhos.

Levanto do vaso e dou descarga
Mais uma crise de prisão de ventre
Dessa vez, desceram apenas meus sonhos
Solitários, como eu
Nem a bosta estava mais lá.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A invenção da roda

No começo eram só grunhidos e urros
Então, demos nome as coisas
Mas foi só uma declaração
Elas já existiam

Depois demos nome aos nossos filhos
E eles passaram a existir, a ser alguém
Até que tudo morreu
E permaneceram as palavras
Nas lápides e nos livros

Algumas palavras também morreram
E foram substituídas por outras
Como os filhos dos primeiros filhos
Que ficaram a mercê dos cartórios
E das celebridades do momento

E algumas celebridades viraram monumento
Mas todas morreram
Sendo que quase todas tiveram filhos
Que disseram suas primeiras palavras
Bem ao pé do ouvido daqueles de futuro certo

E até que detenham o tempo
Com um tiro certeiro da arma escondida
Nas palavras ditas por aqueles que não sabem andar, até lá
Até lá é tudo cíclico
Qualquer ponto final é só reticências.

Natureza morta

Hoje, de novo, preferi ficar em casa
Não me agradam mais as caminhadas, como antigamente
Contudo, poeta como sou, de nascença
Me ponho a refletir sobre as minhas memórias

E, de repente, me dou conta
Que tudo que eu tenho a minha volta
Não é mais que natureza morta

Do artificialismo político
Aos conceitos pré-concebidos
Dos sonetos escritos
Para falsos amores

A natureza chora, contrariando os dogmas da vida
Morta e sem perspectivas
Os seres são inanimados e o tempo parou